Política
Entrevista a André Ventura. "Justiça deu razão ao Chega" no caso das Gémeas
Em entrevista à RTP Notícias no dia em que se conheceu a acusação no chamado "caso das Gémeas", o presidente do Chega salientou o papel do partido para levar o assunto ao Parlamento e denunciou a "teia de interesses, cunhas e abusos" que permitiram um "tratamento preferencial" das duas meninas luso-brasileiras.
O Ministério Público deduziu acusações contra quatro arguidos no "caso das gémeas". São eles António Lacerda Sales, antigo secretário de Estado da Saúde, Nuno Rebelo de Sousa, filho do antigo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Pinheiro, ex-diretor clínico do Hospital de Santa Maria, e Daniela Martins, mães das gémeas.
Foram investigados os factos relacionados com a administração do medicamento Zolgensma a duas crianças com nacionalidade brasileira e portuguesa que sofrem de atrofia muscular espinal, uma doença neurodegenerativa. Dos quatro arguidos, três são acusados de um crime de prevaricação em concurso aparente com o crime de abuso de poder e a mãe das crianças, acusada de um crime de burla qualificada.
"PSD e PS juntaram-se para afastar relatório do Chega"
Na entrevista à RTP conduzida pela jornalista Maria Nobre, o presidente do Chega congratulou-se por ter levado o assunto à Assembleia da República. "Os outros partidos não queriam uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Entendiam que o caso não justificava, que era espuma dos dias", assinalou. Esses partidos "deviam pedir desculpa" após esta acusação, argumentou.
"O Chega percebeu desde o início que estava em causa (…) o acesso à saúde de forma preferencial e através de uma teia de interesses, de cunhas, de abusos", afirmou André Ventura, assinalando que o relatório que o Chega preparou sobre a comissão "apontava crimes claros a Lacerda Sales, a Nuno Rebelo de Sousa, à mãe das gémeas e ao administrador do Hospital".
Ventura lembra que "PSD e PS juntaram-se para afastar o relatório do Chega", que era quem presidia à Comissão. O documento final vincava que não tinha ocorrido "qualquer ilegalidade".
"Não só houve ilegalidades como foram graves. O Ministério Público deixa claro que houve um tratamento preferencial a uma família. Deixa claro que outras crianças não tiveram acesso a esse tratamento e que a marcação da consulta foi feita no uso de interferência política e abuso de poder", sublinha André Ventura, acrescentando ainda: "A justiça deu razão ao Chega".
O líder do Chega é particularmente crítico de Nuno Rebelo de Sousa: "O filho usou o nome do pai para conseguir ter acesso a este conjunto de benefícios que levou à marcação da consulta, ao tratamento preferencial, aos medicamentos".
E se Marcelo Rebelo de Sousa fica de fora da acusação, Ventura diz que houve, ainda assim, um "epicentro de influência junto da Casa Civil". "Quantas outras crianças e outros doentes portugueses tentaram ter acesso a este medicamento e a outros e não tiveram o Presidente da República a apoiá-los, nem o filho do Presidente, nem a Câmara de Comércio Luso-Brasileira, nem o secretário de Estado?", questionou.
"Dinheiro da REN dava para descer o IVA
Esta segunda-feira foi também dia de o Governo iniciar as reuniões com os partidos com vista à entrega do Orçamento do Estado para 2027. Sem afirmar qual será o sentido de voto do Chega, Ventura especula que "PS e PSD já têm acordo" para fazer passar o documento orçamental.
"Conforme o líder parlamentar teve a oportunidade de dizer, não foi uma boa reunião", disse André Ventura sobre o encontro entre o Executivo e a representação parlamentar do Chega esta segunda-feira.
O Governo adianta "que não tem margem para fazer nada", ma s o Chega insiste na baixa dos impostos sobre os combustíveis, lembrando a Luís Montenegro que era essa a sua posição em 2022, quando era líder da oposição.
André Ventura acusa o PS de "frouxidão" e mesmo de "cobardia" por não ter aprovado a proposta do Chega para a baixar o IVA. "José Luís Carneiro é um homem sem palavra”, acusou.
O presidente do Chega adiantou ainda que não vai desistir da redução da idade da reforma e chamou à atenção para a situação de hospitais sem "materiais cirúrgicos e médicos desde o início do ano", defendendo um Orçamento para a Saúde "sem cativações".
Apontou ainda para os problemas que muitos dos professores deslocados enfrentam e que uma melhor orientação de políticas poderia ajudar em todos estes dossiers.
"Se gastarmos menos a por dinheiro na REN, com centenas de milhões a entrar numa empresa chinesa, dá para descer o IVA até ao final do ano", afiançou, acusando o Executivo de "falta de escrúpulos na gestão da coisa pública".
"Não tenho nada contra Luís Neves"
Um dos temas abordados na entrevista foi também o da comissão parlamentar de inquérito às polémicas que envolvem o ministro da Administração Interna, Luís Neves.
"Tal como aconteceu no caso das gémeas, era preciso dar sinal ao país que ninguém está acima da lei, que Luís Neves também não está acima da lei", vincou.
André Ventura sublinhou também que "a Polícia Judiciaria não é Luís Neves" e é "uma instituição credível, central na investigação criminal".
Recusou, nesta entrevista, qualquer ideia de ataque a Luís Neves pela sua ação anterior como diretor nacional da Polícia Judiciária.
"Não tenho nada contra Luís Neves, nem sequer o conheço", afirmou André Ventura. E admite mesmo que a Comissão Parlamentar de Inquérito possa acabar sem conclusões nefastas para o MAI: "Se for para desculpabilizar, também será".
Por fim, a respeito do assalto ao gabinete do Chega no Parlamento, André Ventura adiantou que vai responder ao Ministério Público por escrito, assim como os outros deputados do Chega.
Desmentiu ainda qualquer tipo de encenação e acrescentou que recebe "ameaças constantes" de que o Ministério Público já tem conhecimento.
André Ventura termina a entrevista a considerar inaceitável que um partido possa ser "ameaçado e acossado permanentemente", lembrando o caso da sede de Évora ou mesmo uma ameaça que recebeu esta segunda-feira no Parlamento.